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O grupo Independente Fatec-SP republica o excelente artigo postado no site Revista o Viés sobre o 52º Congresso da UNE, realizado em 2011. É impressionante como a história se repete. Esse texto serve de alerta a todos que acreditam que as fraudes e os desmandos ocorridos em torno da criação do DCE Fatec, foram uma exceção, um ponto fora da curva. Não são! A fraude, a mentira, a hipocrisia, a alienação, o golpe baixo, e a centralização autoritária são práticas sistemáticas e amplamente utilizadas pela UJS na manutenção do seu poder nas organizações estudantis.

DE QUE É FEITO UM CONGRESSO DA UNE?
Por João Victor Moura

“Nós precisamos tomar uma decisão: nós vamos ocupar a escola?”. Sim!, foi a resposta geral. E assim foi feito. Se aquela noite se mostrava movimentada para quem iria dançar ou beber na Praça Universitária, parecia que dali para frente ela também seria movimentada para quem ainda procurava onde dormir durante o 52º Congresso da União Nacional dos Estudantes.

Foto de Tiago Miotto

Dias antes, centenas de estudantes já embarcavam em ônibus por todo o Brasil para participar do maior Congresso estudantil do país, entre os dias 14 e 17 de julho. Para muitos, Goiânia, sede do Congresso, era uma incógnita feita de duplas sertanejas e coronéis da terra. Para outros a incógnita seria o Congresso: o que poderia se esperar de um Congresso organizado pela UNE?

A UNE que ia às ruas lutar pelos estudantes e por toda a sociedade parece morta. Hoje a entidade parece entorpecida pelo governismo de Lula e Dilma, não sabendo aceitar muito bem as suas próprias contradições e se utilizando dos métodos mais sujos para que essas contradições permaneçam ignoradas pela maioria dos estudantes brasileiros.

Os mais saudosistas lembram de uma UNE diferente. Com participação ativa nas lutas contra a ditadura militar, pelas Diretas Já! e no Fora Collor!. Mas, a subida ao poder da UJS, União da Juventude Socialista, na entidade fez muita coisa mudar.

A União da Juventude Socialista pode ser vista como um dos braços de juventude do PCdoB e com um breve resgate histórico é possível perceber o que trouxe a UNE a ser o que é atualmente.

No início da década de 90 a UNE passava a ser dirigida pela UJS. Por muitos anos a entidade continuou contrária ao governo federal, naquela época de Collor, Itamar Franco e FHC. Com Lula subindo a rampa do Palácio do Planalto em 2003 subiam também vários outros partidos e aliados, incluindo aí o PC do B. Desde então a UJS, e por consequência a UNE, está atrelada ao governo.

O Congresso da UNE, realizado de dois em dois anos, tem como finalidade definir as políticas que a entidade defenderá pelos próximos dois anos. Além disso, é eleita a nova direção da UNE – de forma proporcional, ou seja, uma direção formada por boa parte das correntes de pensamento, da situação e da oposição.

Infelizmente o Congresso não preza pela discussão aberta e plural entre correntes de pensamento divergentes. O espaço para discussão disponível é ínfimo e não seria exagero pensar que boa parte dos estudantes que foram ao Congresso voltou para casa sem nenhum ensinamento político de valor. O que teve espaço foi a reprodução de valores tão negativos para a política e para a sociedade brasileira: a omissão daqueles que detém o poder; as palavras de ordem vazias, sem fundamento político; a demagogia dos poderosos, que insistem em considerar que tudo vai bem e que aquilo que vai mal é apenas parte do processo; a hipocrisia daqueles que se dizem democráticos mas que ceifam todas as oportunidades da democracia e da voz do contraditório aparecerem.

A manutenção da UJS na presidência da UNE é parte de um processo um tanto obscuro. Para que o estudante vá como delegado e tenha poder de voto no Congresso ele precisa ter sido eleito na Universidade onde estuda. Esta forma de eleição teria um caráter de democratização da entidade, por promover eleições no plano mais próximo dos estudantes. No entanto, essa fórmula facilita também as fraudes nos processos eleitorais.

São várias as denúncias envolvendo as eleições de delegados para o Congresso. A denúncia de maior destaque dos últimos tempos aconteceu na PUC do Rio Grande do Sul. Um esquema, montado junto com o DCE da instituição, favoreceria a UJS, que tomaria para si, sem um processo transparente de eleição, todas as vagas de delegados da PUC. Em troca, a UJS, e por consequência a UNE, se manteria calada quanto ao processo de eleição para o DCE da PUC. Esse último criticado já há muito tempo por estudantes contrários à política da atual gestão.

Foto de Tiago Miotto

As denúncias ganharam força depois que um grupo de estudantes decidiu manter-se firme contra as medidas do DCE e da UJS, montando e permanecendo em acampamento dentro da Universidade. Assim como na PUC, a UJS mantém sua força em dezenas de universidades particulares, principalmente. O processo da PUC mostra como funciona a lógica do grupo majoritário dentro da UNE: concentrar forças na manutenção do poder dentro da entidade.

Em Goiânia as coisas não saíram muito do que indicava essa política rasteira praticada por grupos políticos ligados ao governo. Era nítida a vontade dos organizadores do Congresso em despolitizar ao máximo aquele espaço. Por um lado, diminuindo ao máximo os grupos de debate durante o Congresso. Por outro lado, dificultando sistematicamente a vida da chamada “Oposição de Esquerda”.

“Nós precisamos tomar uma decisão: nós vamos ocupar a escola?”. Sim!, foi a resposta geral.

Todo o primeiro dia de Congresso já havia ocorrido e centenas de estudantes ainda permaneciam sem alojamento para a noite que chegava. Foi quando a notícia de que o tão esperado alojamento tinha sido conseguido. A alegria durou pouco tempo, só até que outra notícia chegasse: aquele espaço já estaria reservado.

Era necessário tomar alguma providência. E a ocupação parecia a única forma de intervenção capaz de convencer a Direção da UNE de que o alojamento era questão urgente. A ocupação não ocorreu, mas a aglomeração em frente da Escola deu resultado. Depois de algumas horas, finalmente um alojamento seria fornecido. O caso é um bom exemplo do descaso dos organizadores com os grupos contrários à Direção da UNE.

O processo “democrático” defendido pela Direção mostrava-se um grande engodo. Nos dias seguintes nada parecia alterar essa visão. Até que, na tarde do penúltimo dia, ocorreu uma grande surpresa: a bancada da chamada “Frente de Oposição de Esquerda”, FOE, parecia inchada.

Notícias davam conta de que, no Congresso anterior, em 2009, a FOE era um grupo correspondente a 10% do Congresso. Já neste 52º Congresso ela aparecia tendo quase o dobro disso. Esse movimento mostrou nova vibração no Movimento Estudantil brasileiro. Um movimento verdadeiramente independente do governo, capaz de reconhecer suas qualidades sem deixar de fazer todas as críticas necessárias.

Este Movimento pareceu ser a única fonte de esperança dentro de um Congresso apático. Um movimento também com suas contradições, mas com qualidade suficiente para fazer o enfrentamento ao governo. Os dois últimos dias eram reservados à votação, e a força da UJS e suas adjacências governistas (grupos do PMDB, PT, PDT), com quase três quartos da Plenária, era imbatível. Tudo saiu conforme o planejado para o grupo majoritário que controla a UNE há duas décadas, mas o crescimento de uma bancada forte de Oposição de Esquerda na UNE trouxe esperança. De que é feito um Congresso da UNE? De apatia, mas também de boas perspectivas para um movimento estudantil que honre a história da União Nacional dos Estudantes.

Foto de Tiago Miotto

DE QUE É FEITO UM CONGRESSO DA UNE?, pelo viés de João Victor Moura