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“Estamos em greve!”, anuncia o site do SINTEPS – para quem não sabe, é o Sindicato dos Trabalhadores do Centro Paula Souza.

Essa não é a primeira vez, em minha jornada fatecana, que vivencio essa situação polêmica. Lembro-me que em 2011, ocorreu uma greve que paralisou parcialmente as FATECs e ETECs, ela durou cerca de um mês. Na época, os trabalhadores reivindicavam reajuste salarial de 58% para os professores, 72% para os funcionários e progressão de carreira para todos. O governo, como era esperado, foi bem menos generoso. Concedeu reajuste de 11%, progressão de carreira para professores de categorias iniciais, evolução funcional para os servidores com bom desempenho e fim de papo.

Atualmente, em 2014, as motivações para a greve não são muito diferentes. Além do reajuste salarial, o sindicato reivindica a implementação de um plano de carreira que possibilite aos funcionários e professores uma progressão salarial conforme o tempo de trabalho. Reivindicação justa!

A troca de acusações entre patrões e empregados, e a cortina de fumaça com o intuito de desviar a atenção, também fazem parte do jogo. Circula na internet, um obscuro e-mail dizendo que “os coordenadores de curso não poderiam entrar em greve, pois desempenham função essencial”. O Sindicato desmente e alerta, “Com o início da greve começa também uma guerra de informações, muitas delas distorcidas, com o objetivo de confundir e pressionar os trabalhadores”. O Centro Paula Souza, por sua vez, informa que “o anteprojeto que contempla as reivindicações [do Sindicato] é considerado prioritário e deverá ser encaminhado à assembleia legislativa já no início de março”. É a velha luta política. Ainda muita água vai rolar…

Porém a questão que eu coloco é a seguinte: Existe motivos para nós, estudantes, apoiarmos a greve?

Dúvidas

A resposta eu deixo para vocês decidirem. Porém, peço licença aos leitores para fazer algumas reflexões. Para mim, está claro que algo grave acontece nas FATECs e ETECs.

Sei que todo mundo já está careca de saber, mas é necessário dizer pela enésima vez, que a expansão do Centro Paula Souza foi conduzida de forma irresponsável. Ao que parece, o governo está mais preocupado com as belas estatísticas a serem exibidas nas campanhas eleitorais, do que com o oferecimento de uma formação superior de qualidade.

Diferente das outras universidades paulistas (nossas irmãs ricas?), nas FATECs e ETECs faltam bibliotecas, laboratórios, restaurantes universitários, salas de aula com recursos multimídia e espaços de convivência entre os alunos.

Da mesma forma, há pouco incentivo ao desenvolvimento de pesquisas. E aqui é preciso esclarecer um ponto: quando digo pesquisa, não me refiro, por exemplo, a investigação acadêmica sobre o surgimento do sistema solar ou sobre comportamento de partículas no universo subatômico. Refiro-me a pesquisa aplicada. Ao desenvolvimento de novas tecnologias, produtos e serviços, voltados ao mercado mesmo. Somente no Brasil, os cursos superiores de tecnologia são sinônimos de ensino barato, desvinculado de qualquer atividade criativa.

Também não há políticas de permanência estudantil. Não temos bolsas de ajuda de custo, nem alojamentos estudantis para alunos que moram longe. Em resumo, os problemas são antigos e a lista é enorme…

Uma consequência nada agradável da baixa remuneração dos professores e funcionários, é a pérfida bonificação por resultados. O governo, se aproveitando da situação caótica que ele mesmo criou, oferece prêmios em dinheiro aos trabalhadores das unidades que mais aprovarem alunos. Pouco importa se o aluno não obteve um desempenho satisfatório, o que interessa são números. Não é por acaso que recentemente foi divulgada uma pesquisa da Universidade Católica de Brasília, que apontou que mais de 50% dos universitários brasileiros sofrem com o analfabetismo funcional. “A conclusão é que muitos universitários entram na faculdade sem ter o hábito de estudo, aprenderam o conteúdo de forma superficial, costumam decorar ao invés de entender”, diz a pesquisa.

Portanto, motivos para revolta não faltam. Sei que muitos poderão me perguntar, “mas a greve não traz transtornos, não prejudica os alunos, não acarreta em reposição de aulas, etc.”? Sim, tudo isso também é verdade. Em curto prazo haverá alguns transtornos, mas a médio e longo prazo, poderemos conquistar muitos benefícios. Vai depender de nossa capacidade de mobilização e articulação. Como é mesmo aquele ditado? “Não é possível fazer omeletes sem quebrar os ovos”. E particularmente, acho que pensar somente em si mesmo, desconsiderando as precárias condições de trabalhos dos professores e funcionários, é egoísmo.

Não custa lembrar aos críticos de plantão, que a greve é um instrumento legítimo e democrático, assegurado pela Constituição Federal de 1988. No artigo 9º ela diz que “É assegurado o direito de greve, competindo aos trabalhadores decidir sobre a oportunidade de exercê-lo e sobre os interesses que devam por meio dele defender.”.

Antes de concluir, mais uma informação: de acordo com o fechamento parcial do SINTEPS, nas assembleias realizadas nas unidades de FATECs e ETECs até o dia 15 de fevereiro, de 106 unidades, 68 aderiram totalmente à greve; quatro aderiam parcialmente; uma contou com a participação somente de funcionários; e 15 decidiram pela não paralisação. O restante, 18 unidades, ainda não decidiram ou não realizaram as assembleias.

Concluindo, a situação atualmente é essa. Como eu disse acima, muita água ainda vai rolar. Porém, espero sinceramente que essa greve traga benefícios a todos. Não apenas aos professores, funcionários e alunos, mas também a sociedade como um todo. As FATECs e ETECs têm um grande potencial para contribuir com desenvolvimento do Brasil e de São Paulo. Precisamos que o governo nos leve a sério e nos trate com dignidade e respeito.