Archive for the ‘Cotidiano’ Category

Segue um relato estarrecedor sobre uma tentativa de estupro coletivo, ocorrido na República Marragolo, da UFOP:

estupro_coletivo_500

Nota de Denúncia e Repúdio à tentativa de estupro coletivo cometida por moradores da República Marragolo, da UFOP

O seguinte relato evidencia a tentativa de integrantes da República Marragolo, da Universidade Federal de Ouro Preto, de estuprar coletivamente uma companheira nossa, aproveitando-se para planejar o estupro diante do seu então estado de vulnerabilidade, e os relatos de amig@s que estavam no local corroboram as intenções e o plano de fazê-lo, que poderia ter se efetivado caso ela não tivesse amparo de amig@s que perceberam a intenção violenta dos moradores.

“Sou uma mulher, tenho 26 anos, sou feminista. Como tal, considero que a mulher é equivalente ao homem, é ser emancipado, é dona de si e do seu corpo, e não deve ser culpabilizada por nenhum ato ou ameaça que atente contra sua integridade física e moral.

“Ela estava pedindo”, “ela mereceu”, “ela não se deu o respeito”: existe uma cultura do estupro na sociedade. Estupro este, que pode ser consolidado ou anteceder a isso, ser legitimado em juízos e rodas de conversas misóginas.  A mulher é culpada do ponto de vista moral em praticamente todas as ocasiões, seja porque faz o que deseja ou porque se considera que ela está incitando outros a quererem.

Sou de São Paulo. Era feriado de Corpus Christi, viajei para Ouro Preto com um grupo de pessoas do cursinho no qual faço parte, e ficamos hospedados em uma famosa República masculina da cidade, a República Marragolo.

Houve uma festa na República, bebi, fiquei visivelmente alterada, passei mal, meus amigos estavam me ajudando. E entre risadinhas por uma roda de homens, foi ouvido: “Deixa que a gente põe ela na nossa cama e a gente cura lá”, segundo o relato de duas pessoas.  A seguir, uma parte do relato deles na íntegra, que foi enviado por email:

“Dois integrantes da república começaram a conversar do meu lado e percebi que eles estavam falando de você. Aí resolvi prestar atenção no que eles falavam, e um deles disse com essas palavras:

– Olha para **, ela está totalmente bêbada, tá muito fácil para a gente levar para cama e nos revezarmos e comer ela, você não acha cara?

– É mesmo, essa noite a gente se dá bem, em.

– Vamos tentar levar ela para o meu quarto para a gente se divertri com ela enquanto ela tá ”facinha”. Distrai os caras e tenta levar ela pra lá.

Nessa hora eu avisei minha namorada sobre o que eles queriam fazer. Aí nos levantamos e ficamos por perto impedindo eles de chegar perto de você enquanto os professores tentavam ajudar você a ir para o quarto dos professores.

Mas só que eles não desistiram e ficavam toda hora querendo ter uma oportunidade para te pegar, mas eu e a *** combinamos de ficar de olho em quem entrava no quarto, até que chegou um deles (integrante da república) e perguntou por que não colocavam você no quarto dele para deitar na cama em vez do colchonete no chão. Nessa hora a *** começou a discutir com ele, falando que eles não tinham caráter, porque queriam se aproveitar de você. Ela começou a xingá-lo e falou que eles não teriam essa ”sorte” que eles falavam que tinham por você estar bêbada.”

Sim, um estupro coletivo estava sendo planejado. Fico pensando quantas vezes isso não ocorreu com mulheres que ficaram bêbadas em festas na República, e se de fato não foi consolidado um estupro com alguma mulher, que talvez por vergonha de ter ficado bêbada, não os denunciaram.

Depois que deitei na cama, as pessoas que estavam comigo no quarto (que não tinha trinca) disseram que por três vezes a porta foi aberta, verificavam que tinha gente lá e fechavam a porta. Ou seja, a probabilidade deles estarem indo lá para consolidar o que estavam confabulando anteriormente.”

Esta nota tem o objetivo de expor esse caso de violência e os homens que o perpetraram, de dar voz à vítima e, assim, dar forças a todas as mulheres que são cotidianamente violentadas, assediadas e agredidas de diversas formas. Expor estupradores e misóginos em geral é um ato político, que demanda consciência, apoio e coragem de todas as mulheres, pois é por sermos mulheres que sofremos esse tipo de violência. Nós, mulheres, somos cotidiana e sistematicamente perseguidas, atacadas, objetificadas e socializadas para que homens tenham acesso aos nossos corpos violentamente, e isso se torna normalizado.

As linhas que configuram uma situação de violência contra a mulher ficam borradas, e as vítimas, silenciadas. Em muitos casos, a própria vítima não sabe que sofreu uma violência e se sente culpada e sem forças para denunciar o que sofreu.

Não há consentimento em situação de vulnerabilidade, e esses homens sabiam disso e fizeram de tudo para forçar o acesso ao corpo de uma mulher, estuprá-la, e se organizaram para isso.

Não podemos permitir que isso ocorra e que estupradores possam continuar a tentar violentar mulheres sem que nenhuma medida seja tomada, sem que sejam expostos e execrados por suas ações,  e vimos por meio desta nota repudiar quaisquer violências, sexual, psicológica ou quaisquer meios que os homens utilizem para coagir e submeter mulheres e deixamos claro que ESTUPRADORES NÃO PASSARÃO!

Contra toda forma de machismo e misoginia nos levantaremos e apoiaremos nossas companheiras!

Assinam a nota:

– Coletiva Feminista Radical Manas Chicas

– GARRa Feminista (Grupa Ação e Resistência Radical Feminista)

– Marcha Mundial das Mulheres – Núcleo USP

– Frente Feminista de São José dos Campos

– Frente Feminista da USP

– Feminismo Sem Demagogia

– Coletivo Feminista Lélia Gonzalez

– Coletivo Feminista Trepadeiras

– Coletivo Trans*a USP

– RUA – Juventude Anticapitalista

– Coletivo Pr’Além dos Muros

– Juntas

– Coletivo Feminista Maria Bonita

– Coletivo Feminista Comuhna

Monge franciscano, participante da Marcha Antifascista, explica por que é contra a Marcha da Família com Deus pela Liberdade.

“Estou do lado do mais fraco”, diz o monge.

“Por que se questiona tanto o estudo de Marx e não a interferência prática e direta [nas escolas e universidade] das empresas de carros, tratores e sementes, institutos de cosméticos e bancos”… [e empresas de bebidas alcoólicas]?

mito

Ultimamente venho “escutando” na internet e nas redes sociais, uma gritaria estrondosa a respeito da suposta doutrinação ideológica marxista, praticada pelos professores das escolas e universidades brasileiras.

Já escrevi alguns posts sobre o caso da professora Cleo Tibiriça da Fatec Barueri, perseguida pelo blog arque-conservador “EscolaSemPartido”.

Entretanto, seguindo a mesma linha, tratarei hoje de mais um episódio dessa novela mexicana de péssimo gosto misturada com teoria da conspiração de segunda…

Recentemente, o filósofo direitista e colunista da Folha de São Paulo, Luís Felipe Pondé, escreveu o artigo “Eu acuso”, onde denuncia a terrível coação comunista na qual os pobres alunos do ensino médio e superior estão sendo submetidos:

“Muitos alunos de universidade e ensino médio estão sendo acuados em sala de aula por recusarem a pregação marxista. São reprovados em trabalhos ou taxados de egoístas e insensíveis. No Enem, questões ideológicas obrigam esses jovens a “fingirem” que são marxistas para não terem resultados ruins”.   

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2013/11/1366183-eu-acuso.shtml

Em resposta, o também filósofo e professor universitário, Paulo Ghiraldelli, publicou em seu blog, o artigo “Pondé e o perigo da doutrinação nas escolas” expondo ao ridículo a falácia panfletária de Pondé:

“Estamos em uma época que nenhum professor reina, ao contrário, a maioria acaba cedendo a tudo que o aluno pede. Vivemos em uma situação deplorável do ponto de vista do respeito ao professor, tanto no ensino médio quanto na universidade.”.

http://ghiraldelli.pro.br/ponde-e-o-perigo-da-doutrinacao-nas-escolas/

Porém, com o intuito de aprofundar um pouco mais esse debate, reproduzirei aqui o interessante comentário ao texto de Ghiraldelli, escrito pela leitora de seu blog, identificada apenas como Amanda. Amanda expõe de forma clara e objetiva (sem floreios filosóficos) a total desconexão da realidade existente no discurso denuncista da direita tupiniquim.

“Sempre que os leio [os articulistas da direita], sinto que estudei e me formei em escolas e universidade de outro país”.

Para que o leitor tenha maior compreensão dessa picuinha, aconselho-o a ler os artigos de Pondé e Ghiraldelli, mencionados acima. Vale a pena conferir!

Sobre a suposta doutrinação marxista nas escolas:

Comentário de Amanda no blog http://ghiraldelli.pro.br

Olá, Ghiraldelli e demais. Meu comentário talvez em nada contribua para a discussão, mas considero importante colocar esta minha inquietação. Sou professora da educação básica e me formei em História há pouco tempo em uma universidade pública.

Vejo frequentemente vários textos que falam de uma doutrinação marxistas nas escolas e universidades (e diga-se de passagem, este seu texto é o primeiro em que vi tratar o tema de forma mais crítica). A inquietação: sempre que os leio, sinto que estudei e me formei em escolas e universidade de outro país!

Estudei toda minha vida em escola pública e por mais que tente encontrar algum traço de tamanha intelectualidade nas aulas que tive (a ponto de estudar categorias marxistas e de outros clássicos), só posso lhe afirmar que a educação nas escolas públicas que cursei, além de não conseguir transgredir o básico dos conteúdos possibilitados pelas condições precárias de ensino, me pareceu totalmente em acordo com o modelo do mercado. Aliás, quando comecei a dar aulas na educação infantil descobri que não poderia ser diferente, já que os programas educacionais das secretárias educação (não diferente é o MEC), em grande parte, estão vinculados a projetos da iniciativa privada de alguma forma (eu, no pequeno período que fui professora na educação infantil, já tive vários cursos de formação continuada ministrados diretamente por agentes do Instituto Natura, da Fundação Itaú Social, etc.). Fora isso, muitas amigas minhas trabalham em escolas privadas e a nova grande moda para a educação infantil e séries iniciais, ao menos nas escolas privadas da região em que moro, é a matéria de Empreendedorismo para crianças.

Mas, enfim, me voltando para a Universidade em que me formei minha inquietação é maior ainda. Por fim, foi diferente, ao menos na universidade pública podemos afirmar que as condições de ensino e pesquisa lhe permitem contato com os mais variados autores, discussões e perspectiva. Ao menos nos cursos de humanas, pois os de engenharia seguem no aprofundamento de lógica de “escolão” e cada vez mais vinculados diretamente a projetos da iniciativa privada (ao menos na minha universidade, já vi várias exposições públicas de marcas de carros, tratores, sementes e demais empresas que financiam e se beneficiam das pesquisas realizadas nos cursos de engenharias).

Enfim, mas quanto aos cursos de humanas (e tive contato com vários durante minha graduação, pois sempre fui muito de cursar disciplinas em outros cursos), me lembro bem da minha graduação e me pergunto exaustivamente: onde esteve Marx? Confesso que em todo o meu curso de História só o discutimos uma ou duas vezes de forma muito superficial. Além do meu curso, na Ciências Sociais me lembro de ter tido a oportunidade de conhecer melhor que autor era este, obviamente, em uma disciplina de Sociologia 1 ou 2, em que a leitura, como você já bem disse, de Marx, Weber e Durkheim é mais que obrigatória. Nos demais cursos de humanas que tive contato (pedagogia, direito e geografia), conhecendo e perguntando para amigos, me garantem que jamais estudaram Marx propriamente. Voltando para o meu curso e, com certeza, também nestes demais, posso garantir, com toda absoluta certeza, que a maior parte dos professores reproduz claramente que Marx foi superado, e que minha formação se baseou mais em visões pós modernistas que marxistas.

Então, só vejo três alternativas: ou a maior parte destas pessoas que lê Luís Felipe Pondé e Reinaldo Azevedo não estudaram em escolas públicas, ou mesmo entraram e saíram da universidade sem saber o que realmente é Marx, achando que qualquer coisa que fale de capitalismo já seria marxista. Ou, por último, talvez eu tenha tido sorte de estudar em uma universidade revolucionária que conseguiu se libertar da doutrinação marxista e ser livre para se conectar a iniciativa privada.

Pois bem, para que eu possa mesmo descobrir se não estou mesmo sendo doutrinada, estes colunistas e seus leitores poderiam somente nos esclarecer porque se questiona tanto o estudo de Marx e não a interferência prática e direta das empresas de carros, tratores e sementes e Institutos de cosméticos e bancos. Afinal, muito se falou em leitura de Marx, mas ainda não vi nenhuma queixa sobre a negatividade dos efeitos práticos de sua leitura nas universidades. Gostaria de ouvir mais de Pondé, Reinaldo Azevedo e os que os defendem, o porquê Marx anda sendo tão perigoso na educação de nosso jovens.

Desculpem a extensão do texto rs Aguardo respostas dos leitores e, se possível, com suas experiências de leitura de Marx nas escolas públicas brasileiras.

A juíza Daniela Nudeliman Guiguet Leal, da 2ª Vara Cível da Comarca de Barueri, determinou a retirada de qualquer artigo publicado no blog “escolasempartido.org” e também de terceiros, que mencione a professora Cléo Tibiriçá, ou o curso por ela ministrado, sob o pagamento de multa diária de R$ 1000,00, a ser revertido em indenização em favor da professora.

Segundo a decisão judicial, existem indícios de que o coordenador do blog, Miguel Nagib está extrapolando o seu direito de manifestar sua opinião, ao veicular críticas ofensivas à professora.

Segue a decisão judicial na íntegra: decisao_judicial

300x250imil

Entenda o caso:

A disputa entre a professora da Fatec Barueri Cléo Tibiriçá e o articulista do Instituto Millenium e também coordenador do blog “escolasempartido.org”, Miguel Nagib, teve início após a publicação no blog da denúncia de suposta doutrinação ideológica empreendida pela professora.

De acordo com Nagib, a professora promove em suas aulas a “maior aversão possível a tudo o que não se identifique com uma visão esquerdista ou progressista da sociedade, da cultura, da economia e da história”. Para fundamentar sua acusação, Nagib cita os texto utilizados no plano de ensino da professora, como as reportagens da revista CartaCapital e textos do historiador marxista Eric Hobsbawn, do sociólogo da USP Ruy Braga e do economista Fernando Nogueira da Costa. O blog também chegou a reproduzir uma troca de e-mails pessoais entre a professora e seus alunos.

Em sua defesa, a professora Cléo Tibiriçá afirma que “em educação não existe professor que não entre em sala de aula com a sua visão de mundo e não existe instituição de educação em cujo espaço não conviva diferentes visões, tanto na gestão, como nos docentes e nos alunos”.

As denúncias de Nagib geraram grande repercussão na internet. O caso foi noticiado em várias publicações, como a Revista Veja, Carta Capital e Revista Fórum. O Sindicato dos Trabalhadores do Centro Paula Souza (Sinteps), publicou uma “moção de repúdio contra perseguição à professora da Fatec”, onde classifica (aliás, muito bem classificado) de campanha “fascista e obscurantista do blog Escola sem partido“. O grupo Independente Fatec-SP também se orgulha de ter sido a primeira publicação a denunciar a cruzada difamatória de Miguel Nagib, e de associá-lo ao Instituto Millenium (entidade de extrema direita, ligada aos grandes conglomerados midiáticos). Vergonhoso porém, foi a atitude covarde do recém fundado DCE Fatec, que se silenciou sobre o caso.

Em recente entrevista à Revista Fórum a professora da Fatec desabafa “Minha vida se tornou um inferno, meu telefone não para de tocar em nenhum momento. Na Fatec, meus alunos tem falado muito sobre isso. Tenho visto meu nome envolvido com acusações das quais não posso me defender. Me chamam de marxista, meu Deus, peço desculpas aos meus amigos marxistas, isso é de uma ignorância tão grande, pois é tão difícil se encontrar um de verdade, e eu não sou. Tenho verdadeiro nojo das pessoas que tem me procurado anonimamente na internet…”.

Miguel Nagib provavelmente irá recorrer da decisão judicial. O fato é que a sociedade brasileira caminha para uma radicalização. Infelizmente, campanhas difamatórias empreendidas por publicações de extrema direita serão cada vez mais frequentes.

Republico aqui o artigo do blog ultraconservador “Escola sem Partido” a respeito da suposta doutrinação ideológica praticada pela professora Cléo Tibiriçá do curso Comércio Exterior da Fatec-Barueri.

O Artigo (o primeiro de uma série) é assinado por Miguel Nagib, coordenador do blog e articulista do Instituto Millenium (organização de extrema direita ligada à mídia tradicional e ao projeto político partidário do PSDB/DEM).

Nagib confunde deliberadamente, a utilização do instrumental teórico marxista (que é insuperável na denúncia das mazelas do capitalismo), com doutrinação partidária. Isso se admitirmos a premissa de que a professora da Fatec utilize apenas o instrumental marxista, o que obviamente não é verdade.

Leia também o excelente artigo do professor de história da UFT, Bertone Souza, sobre por que Marx ainda assusta os conservadores: http://bertonesousa.wordpress.com/2013/10/07/por-que-marx-ainda-assusta-os-conservadores/

Na realidade, Nagib está magoado com a professora, pois no seu plano de ensino não consta figuras como os direitistas Olavo de Carvalho, Luis Felipe Pondé, Reinaldo Azevedo e textos do Mídia sem Mascaras e dos manuais politicamente incorretos de Leandro Narloch. Ainda bem…

O Instituto Millenium diz promover os valores do “Direito de propriedade, liberdades individuais, livre iniciativa, afirmação do individualismo, meritocracia, transparência, eficiência, democracia representativa e igualdade perante a lei.”. Utilizando o mesmo critério de Nagib, não podemos também concluir que tais valores são igualmente doutrinação ideológica?

Onde está o DCE Fatec nessas horas? Vão se calar de novo, assim como fizeram no episódio das denúncias de coação na Fatec SCS????

Segue o texto na íntegra:

http://www.escolasempartido.org/universidades/424-doutrinacao-ideologica-na-fatec-de-barueri-1-parte

nagib

Doutrinação ideológica na FATEC de Barueri – 1ª parte

O Escola sem Partido inicia, a partir de hoje, 22.11.2013, a publicação de uma série de artigos sobre as aulas ministradas pela Prof.ª Cléo Tibiriçá, na Faculdade de Tecnologia de São Paulo – FATEC. A publicação de cada texto será precedida do seu envio à professora (como ocorreu com o texto abaixo), a fim de que ela possa contestar nossas afirmações quanto aos fatos e exercer da forma mais ampla o direito de resposta. Além disso, enviaremos cópias dos artigos publicados ao coordenador do curso de Comércio Exterior da FATEC-Barueri, Givan Fortuoso, ao diretor da faculdade, Evandro Cleber da Silva, e ao Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Herman Jacobus Cornelis Voorwald. Não nos move nessa iniciativa nenhuma indisposição pessoal em relação à professora — que sequer conhecemos –, mas a convicção de que é necessário denunciar publicamente essa prática ilícita que é a doutrinação política e ideológica em sala de aula (para saber mais sobre o caráter ilícito da doutrinação, leiam o artigo “Professor não tem direito de ‘fazer a cabeça’ de aluno”).

*  *  *

Por Miguel Nagib

De acordo com o plano de ensino da Prof.ª Cléo Tibiriça — que dá aulas de Comunicação e Expressão na FATEC de Barueri-SP –, o objetivo de sua disciplina é “desenvolver nos alunos a capacidade e o rigor na leitura, interpretação e produção de textos (…).”

Mas, a julgar pelo material que seus alunos são obrigados a ler, assistir e debater, há mais alguma coisa que a professora está tentando “desenvolver” nos estudantes.

Dêem uma olhada e digam que coisa é essa:

– Prefácio do livro “A Era dos Extremos”, do historiador marxista Eric Hobsbawn;

– “Encontro com Milton Santos ou o mundo global visto do lado de cá”, documentário de Silvio Tendler sobre o geógrafo “marxista não ortodoxo” Milton Santos;

– “Medíocres e Perigosos”, artigo do jornalista Matheus Pichonelli, publicado na revista Carta Capital;

– “Direitos Humanos para humanos direitos”, artigo do jornalista Matheus Pichonelli, publicado na revista Carta Capital;

– “Desassossego na cozinha”, artigo do sociólogo e militante do PSTU Ruy Braga, publicado no Estadão;

– “Procuram-se domésticas, Paga-se bem”, reportagem publicada no Estadão;

– “No Brasil a pobreza tem cor”, artigo do jornalista e vice-presidente do Partido Socialista Brasileiro Roberto Amaral, publicado na revista Carta Capital.

– “Tinha que ser preto mesmo!”, texto do jornalista Leonardo Sakamoto;

– “O sonho do ministro Joaquim Barbosa”, artigo no qual o professor de História e presidente do INSPIR – Instituto Sindical Interamericano pela Igualdade Racial, Ramatis Jacino, acusa o Min. Joaquim Barbosa de ingratidão por não haver retribuído com seu voto no julgamento do Mensalão o “favor” de haver sido nomeado ministro do STF pelo PT;

– “Direita e esquerda – razões e significados de uma distinção política”, texto do economista Fernando Nogueira da Costa;

– “O dia que durou 21 anos”, documentário dirigido por Camilo Tavares, sobre a participação dos EUA no golpe militar que depôs o Pres. João Goulart;

– “Capitães de Abril”, filme sobre o golpe militar que pôs fim ao regime salazarista em Portugal;

– “Tanto Mar”, canção de Chico Buarque sobre o mesmo golpe;

Entrevista do filósofo Edgar Morin no programa Roda Viva;

– “Preconceito Linguístico”, livro de Marcos Bagno segundo o qual a norma culta é instrumento de opressão da classe dominante contra os pobres.

E então, alguma dúvida? Obviamente, não. O que a Prof.ª Cléo está tentando “desenvolver” nos alunos, a julgar pelo escandaloso viés ideológico do material adotado em seu plano de ensino, é a maior aversão possível a tudo o que não se identifique com uma visão esquerdista ou progressista da sociedade, da cultura, da economia e da história.

É o que veremos em detalhe na continuação da presente análise.

Continua

DIREITO DE RESPOSTA

Cientificada do conteúdo dos dois primeiros artigos da série dedicada ao exame de suas aulas na FATEC, a Prof.ª Cleonildi Tibiriçá nos enviou a mensagem abaixo, com cópia para os deputados estaduais Carlos Giannazi, do PSOL, e João Paulo Rillo, do PT. Trata-se, ao que parece, de um apelo não tão discreto à solidariedade dos companheiros. Faz sentido. 

Nossos comentários estão em azul (colchetes inseridos; negritos do original):

Em resposta a seu aviso de publicação de artigo em que veicula informações descontextualizadas e distorcidas sobre minhas aulas e minha correspondência particular com meus alunos – vale ressaltar que a simples publicização de informações circulantes em grupo fechado privado, sem previa autorização, já constitui irregularidade passível de responsabilização e penalidade previstas em lei [a professora se refere a  uma mensagem eletrônica por ela enviada aos alunos e que nos foi encaminhada por um dos destinatários; essa mensagem será objeto de análise no próximo artigo da série] –, venho notificá-lo de minha discordância e consequente desautorização da referida publicação, vinculando meu nome aos propósitos difamatórios do blog que o sr. coordena.

1 – A publicação desta série de artigos sobre as aulas da Prof.ª Cléo Tibiriçá na FATEC-Barueri não possui nenhum propósito difamatório. Trata-se, ao contrário, da crítica democrática e republicana a um aspecto específico da atividade por ela desenvolvida como docente de uma instituição pública de ensino (ainda que a instituição fosse particular, a prática docente não deixaria de ser pública por sua própria natureza). Nosso propósito exclusivo é expor e debater publicamente a prática adotada pela Prof.ª Cléo Tibiriçá no ambiente restrito e protegido da sala de aula. Obviamente, o ordenamento jurídico não confere a nenhum professor da rede pública ou particular de ensino o direito de manter sob sigilo o conteúdo de suas aulas.

2 – As únicas “informações” contidas no texto foram extraídas de documentos produzidos pela própria professora, a saber: o seu plano de ensino e a mensagem por ela enviada aos alunos (da qual se falará no próximo artigo). A professora não contesta a autenticidade desses documentos.

3 – O plano de ensino é um documento público, que ostenta nada menos que os timbres do Governo do Estado de São Paulo e do Centro Paula Souza. Já a mensagem enviada aos alunos — encaminhada ao email do ESP por um dos seus destinatários — não se qualifica como “correspondência particular”. Trata-se de orientação transmitida aos alunos sobre temas relativos às aulas ministradas pela professora na Fatec. Novamente, portanto, está-se diante de ato praticado no âmbito das atividades docentes da servidora pública Cleonilde Tibiriçá.

4 – Cabe à professora demonstrar que as informações veiculadas em nosso artigo foram “descontextualizadas e distorcidas”. Para isso, o ESP lhe assegura o mais amplo direito de resposta.

Primeiramente, dado que a questão me é dirigida como docente, e não como simples cidadã, quero salientar, antes de qualquer coisa, a ausência de legitimidade de seu blog para julgar conteúdos ministrados por mim ou por qualquer outro professor. O direito à liberdade de expressão lhe garante a divulgação de suas opiniões sobre qualquer coisa, mas serão sempre, e apenas, opiniões.

5 – Ao contrário do que afirma a professora, a legitimidade de nossa crítica provém justamente do fato de ser dirigida à sua atividade como docente, e não como cidadã.

6 – A servidora pública Cleonildi Tibiriçá — cujos salários são pagos pelos cofres públicos — não tem direito a que os atos por ela praticados no âmbito do sistema público de ensino fiquem imunes à crítica. No Estado Democrático de Direito, ninguém que atue na esfera pública tem esse direito. Até os ministros do Supremo Tribunal Federal podem ser criticados — e são criticados muitas vezes com extremo rigor — por sua atividade judicante.

Ainda que o sr. tenha assumido, perante seu grupo ou seu partido, o papel de paladino da educação brasileira, nem o sr. nem seu blog são órgãos fiscalizadores do Ministério da Educação, nem podem pretender agir como tal, arrogando-se autoridade legal para censurar o pensamento e a livre expressão. Por isso, causa estranheza sua ameaça de que a “publicação será feita, a menos que eu demonstre não serem verdadeiros os fatos” (tendenciosamente) articulados, em que se pressupõe que, além de “fiscal”, o sr. atribui-se a posição de “julgador” do que seja a verdade (e isso, logicamente, sob sua lente particular e enviesada).

7 – Engana-se a professora ao supor que sua atividade como docente está sujeita apenas à “fiscalização” do Ministério da Educação. “Nos países não empolgados pelo autoritarismo estatal — ensinava Nelson Hungria –, o exercício dos cargos públicos, criados para servir ao interesse público, não pode deixar de ficar exposto à censura pública, à sindicância dos cidadãos em geral”.

8 – É evidente, por outro lado, que nossa crítica nada tem a ver com censura. Na verdade, é a professora quem está pretendendo censurar a nossa crítica. Ou seja, ela nos acusa daquilo que ela mesma pretende fazer.

Além disso, sr. preclaro autoproclamado paladino das liberdades democráticas, antes de tudo, deixemos evidente que quem se declara “sem partido” como o faz o seu blog está se declarando, na verdade, a favor do partido que sempre quis ditar os rumos desse país. Portanto, para começo de conversa, é imperativo esclarecer que é desse lugar de desinteligência que entendo partir sua ameaça, de resto, tendenciosa e infundada.

9 – A professora nos filia ao partido da direita e reconhece, implicitamente, a sua filiação ao partido da esquerda, já que, a seu ver, é impossível não pertencer a um desses dois partidos. Assim, ao tentar deslegitimar a nossa crítica — vinculando-a aos interesses do partido que “sempre quis ditar os rumos desse país” –, a professora assume de forma inequívoca a mesma identidade ideológica do seu plano de ensino. 

10 – Não existe, de nossa parte, nenhuma ameaça. O que existe é a denúncia de uma prática ilícita. E essa denúncia nada tem de tendenciosa ou infundada, como se vê do plano de ensino da professora.

Não pretendo perder meu tempo com excrescências de corte fascista, mas, como advogado que é, o sr. deve saber que devo notificá-lo, para alertá-lo sobre as consequências de sua não observância de minha desautorização. É assim que, ciente de meus direitos como cidadã e docente, bem como do que determina a Constituição Federal, notifico em resposta minha discordância e desautorização diante do que considero uma afronta de sua parte, passível de reparação nos termos da lei. Sem a menor intenção de dar-lhe qualquer explicação, mas a título de ressaltar fatos elementares, amplamente conhecidos, recordo-lhe que a autonomia didático-pedagógica assegurada às Instituições de Ensino confere à FATEC o poder-dever de determinar os programas de ensino da Instituição, conforme o artigo 207 da Constituição Federal: “As universidades gozam de autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial, e obedecerão ao princípio de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão.”

Como professora contratada pela FATEC por meio de concurso público, igualmente me é assegurada a autonomia para, dentro de minha área de especialidade, definir o plano de ensino no formato em que julgar que deva sê-lo.

11 – Vejamos: doutrinação política e ideológica em sala de aula é prática comum em regimes totalitários, sejam fascistas, nazistas ou comunistas. Se o ESP se opõe a essa prática, como pode ser tachado de fascista?

12 – A essência da nossa proposta jurídico-pedagógica está resumida no cartaz com os Deveres do Professor, cuja afixação nas salas de aula a partir do ensino fundamental constitui a principal bandeira do ESP. Lê-se no cartaz:

1. O professor não abusará da inexperiência, da falta de conhecimento ou da imaturidade dos alunos, com o objetivo de cooptá-los para esta ou aquela corrente político-partidária, nem adotará livros didáticos que tenham esse objetivo.

2. O professor não favorecerá nem prejudicará os alunos em razão de suas convicções políticas, ideológicas, religiosas, ou da falta delas.

3. O professor não fará propaganda político-partidária em sala de aula nem incitará seus alunos a participar de manifestações, atos públicos e passeatas.

4. Ao tratar de questões políticas, sócio-culturais e econômicas, o professor apresentará aos alunos, de forma justa – isto é, com a mesma profundidade e seriedade –, as principais versões, teorias, opiniões e perspectivas concorrentes a respeito.

5. O professor não criará em sala de aula uma atmosfera de intimidação, ostensiva ou sutil, capaz de desencorajar a manifestação de pontos de vista discordantes dos seus, nem permitirá que tal atmosfera seja criada pela ação de alunos sectários ou de outros professores.

13 – É isso que a Prof.ª Cleonildi chama de “excrescência de corte fascista”?

14 – A autonomia didático-pedagógica assegurada às universidades não dá aos professores o direito de usar a sala de aula para “fazer a cabeça” dos alunos. Isso, repito, é coisa de regime totalitário, onde não existe liberdade de consciência.

15 – O professor não pode se aproveitar do fato de o aluno ser obrigado a frequentar suas aulas para forçá-lo a escutar e estudar uma pregação política e ideológica. Se o fizer, estará violando, a um só tempo, a liberdade de consciência e a liberdade de aprender do estudante (arts. 5º, VI, e 206, II, da Constituição Federal).

16 – Conforme decisão recente do Tribunal Supremo da Espanha, fundada em princípios jurídicos que também são adotados pela Constituição brasileira,

“O Estado não pode incorrer em qualquer forma de proselitismo ideológico.

As matérias que o Estado qualifica como obrigatórias não devem ser pretexto para tratar de persuadir os alunos sobre ideias e doutrinas que reflitam tomadas de posição sobre problemas a respeito dos quais não existe consenso generalizado na sociedade espanhola.

Em uma sociedade democrática, nem o Estado, nem as escolas, nem os professores, podem se erigir em árbitro de questões morais [e também de questões políticas e ideológicas] controvertidas.

Estas questões pertencem ao âmbito do livre debate na sociedade, e não existe livre debate na relação vertical entre professor e aluno.”

Isso seria o bastante para apenas ignorar sua ameaça (e é disso que se trata, já que, salvo melhor juízo, não há qualquer embasamento científico que confira ‘foros’ de ‘parecer’ àquilo que, a despeito de ser livre exercício de manifestação de pensamento, é apenas tentativa de calar o que vai de encontro àquilo que o “partido” – seja lá qual for – da “escola sem partido” crê deva ser posto em debate); todavia, ameaças desse tipo, por mais inócuas que pareçam, não podem ser ignoradas. O sr., seus chefes e seus seguidores são adultos que devem assumir a responsabilidade pelas ações persecutórias que desencadeiam e suas consequências. E é o que acontecerá – o sr., seus chefes e seus seguidores responderão judicialmente caso tentem vincular meu nome à sua campanha de bullying ideológico.

17 – Como resta claro de sua resposta, é a professora quem está ameaçando o ESP, não o contrário. De nossa parte, o que desejamos é que a Prof.ª Cléo perceba o erro que está cometendo ao usar suas aulas para tentar “fazer a cabeça” dos alunos; e se emende desse erro. Ou, se isto não ocorrer, que seja impedida por seus superiores hierárquicos ou pelos próprios alunos de usar a sala de aula para fazer proselitismo político e ideológico.

18 – Bullying ideológico é o que faz a professora com seus alunos ao obrigá-los a ler e debater os artigos de Matheus Pichonelli e companhia.

Posto isso e neste sentido é que deve seu blog – que considero um instrumento pernicioso de desinformação e desrespeito às liberdades democráticas – abster-se de publicar qualquer artigo com meu nome. Como advogado, o sr. deve conhecer o artigo 20 do Código Civil – que fiz constar na epígrafe desta carta-notificação –, onde se lê que:

“Salvo se autorizadas, ou se necessárias à administração da justiça ou à manutenção da ordem pública, a divulgação de escritos, a transmissão da palavra, ou a publicação, a exposição ou a utilização da imagem de uma pessoa poderão ser proibidas, a seu requerimento e sem prejuízo da indenização que couber, se lhe atingirem a honra, a boa fama ou a respeitabilidade, ou se se destinarem a fins comerciais.”

Não é preciso grande esforço argumentativo para evidenciar que a mera citação de meu nome em qualquer publicação veiculada por seu blog incorreria em todos os aspectos previstos pelo referido artigo, tendo em vista que meu currículo de profissional graduada e pós-graduada pela melhor universidade da América Latina, pesquisadora atuante, pela mesma instituição, em grupo devidamente credenciado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), bem como minha irrepreensível conduta profissional como professora de ensino médio, técnico e superior de instituições educacionais públicas e privadas de reconhecido prestígio, garantem-me a honra, a boa fama e a respeitabilidade que seu tacanho projeto ideológico visa comprometer e a cuja preservação fica-me garantido o direito pelo já citado artigo 20 do Código Civil.

19 – O ESP não tem fins comerciais. Estamos nessa luta por amor ao conhecimento e à verdade.

20 – O art. 20 do Código Civil não prevalece sobre as liberdades de expressão e de informação, ambas asseguradas pela Constituição Federal. Bem por isso, ele é objeto da Ação Direta de Inconstitucionalidade 4.815.

21 – Se a honra, a boa fama ou a respeitabilidade da Prof.ª Cléo forem lesados, isso terá ocorrido por força, unicamente, da divulgação de seus próprios atos. O mais provável, no entanto, é que ela seja tratada, no seu meio, como heroína da causa esquerdista.

22 – “Projeto ideológico” é o que a professora desenvolve em suas aulas na FATEC, às custas dos contribuintes do Estado de São Paulo. O projeto do ESP, bancado integralmente com os nossos próprios recursos, é anti-ideológico, como deixa claro a simples leitura do cartaz com os Deveres do Professor.

Sendo, por ora, o que tenho a notificar, finalizo por registrar meu mais profundo sentimento de honra por saber-me listada entre os desafetos de seu grupo. Em minha humilde prática docente, é motivo de imensurável orgulho ser objeto da sanha persecutória do “partido” da “escola sem partido”, ao lado de autores e educadores, eles, sim, dignos de reconhecimento e respeito.

22 – Ora, se a professora está honrada e orgulhosa pelo fato de sua prática docente ser objeto de nossa crítica, ela não tem do que reclamar.

Atenciosamente,

Cleonildi Tibiriçá

Reportagem sobre as Eleições do DCE Fatec 2013

Posted: 6 de Novembro de 2013 by independentefatecsp in Cotidiano
Etiquetas:,

Registro das primeiras eleições do DCE Fatec.

O grupo Independente Fatec-SP republica o excelente artigo postado no site Revista o Viés sobre o 52º Congresso da UNE, realizado em 2011. É impressionante como a história se repete. Esse texto serve de alerta a todos que acreditam que as fraudes e os desmandos ocorridos em torno da criação do DCE Fatec, foram uma exceção, um ponto fora da curva. Não são! A fraude, a mentira, a hipocrisia, a alienação, o golpe baixo, e a centralização autoritária são práticas sistemáticas e amplamente utilizadas pela UJS na manutenção do seu poder nas organizações estudantis.

DE QUE É FEITO UM CONGRESSO DA UNE?
Por João Victor Moura

“Nós precisamos tomar uma decisão: nós vamos ocupar a escola?”. Sim!, foi a resposta geral. E assim foi feito. Se aquela noite se mostrava movimentada para quem iria dançar ou beber na Praça Universitária, parecia que dali para frente ela também seria movimentada para quem ainda procurava onde dormir durante o 52º Congresso da União Nacional dos Estudantes.

Foto de Tiago Miotto

Dias antes, centenas de estudantes já embarcavam em ônibus por todo o Brasil para participar do maior Congresso estudantil do país, entre os dias 14 e 17 de julho. Para muitos, Goiânia, sede do Congresso, era uma incógnita feita de duplas sertanejas e coronéis da terra. Para outros a incógnita seria o Congresso: o que poderia se esperar de um Congresso organizado pela UNE?

A UNE que ia às ruas lutar pelos estudantes e por toda a sociedade parece morta. Hoje a entidade parece entorpecida pelo governismo de Lula e Dilma, não sabendo aceitar muito bem as suas próprias contradições e se utilizando dos métodos mais sujos para que essas contradições permaneçam ignoradas pela maioria dos estudantes brasileiros.

Os mais saudosistas lembram de uma UNE diferente. Com participação ativa nas lutas contra a ditadura militar, pelas Diretas Já! e no Fora Collor!. Mas, a subida ao poder da UJS, União da Juventude Socialista, na entidade fez muita coisa mudar.

A União da Juventude Socialista pode ser vista como um dos braços de juventude do PCdoB e com um breve resgate histórico é possível perceber o que trouxe a UNE a ser o que é atualmente.

No início da década de 90 a UNE passava a ser dirigida pela UJS. Por muitos anos a entidade continuou contrária ao governo federal, naquela época de Collor, Itamar Franco e FHC. Com Lula subindo a rampa do Palácio do Planalto em 2003 subiam também vários outros partidos e aliados, incluindo aí o PC do B. Desde então a UJS, e por consequência a UNE, está atrelada ao governo.

O Congresso da UNE, realizado de dois em dois anos, tem como finalidade definir as políticas que a entidade defenderá pelos próximos dois anos. Além disso, é eleita a nova direção da UNE – de forma proporcional, ou seja, uma direção formada por boa parte das correntes de pensamento, da situação e da oposição.

Infelizmente o Congresso não preza pela discussão aberta e plural entre correntes de pensamento divergentes. O espaço para discussão disponível é ínfimo e não seria exagero pensar que boa parte dos estudantes que foram ao Congresso voltou para casa sem nenhum ensinamento político de valor. O que teve espaço foi a reprodução de valores tão negativos para a política e para a sociedade brasileira: a omissão daqueles que detém o poder; as palavras de ordem vazias, sem fundamento político; a demagogia dos poderosos, que insistem em considerar que tudo vai bem e que aquilo que vai mal é apenas parte do processo; a hipocrisia daqueles que se dizem democráticos mas que ceifam todas as oportunidades da democracia e da voz do contraditório aparecerem.

A manutenção da UJS na presidência da UNE é parte de um processo um tanto obscuro. Para que o estudante vá como delegado e tenha poder de voto no Congresso ele precisa ter sido eleito na Universidade onde estuda. Esta forma de eleição teria um caráter de democratização da entidade, por promover eleições no plano mais próximo dos estudantes. No entanto, essa fórmula facilita também as fraudes nos processos eleitorais.

São várias as denúncias envolvendo as eleições de delegados para o Congresso. A denúncia de maior destaque dos últimos tempos aconteceu na PUC do Rio Grande do Sul. Um esquema, montado junto com o DCE da instituição, favoreceria a UJS, que tomaria para si, sem um processo transparente de eleição, todas as vagas de delegados da PUC. Em troca, a UJS, e por consequência a UNE, se manteria calada quanto ao processo de eleição para o DCE da PUC. Esse último criticado já há muito tempo por estudantes contrários à política da atual gestão.

Foto de Tiago Miotto

As denúncias ganharam força depois que um grupo de estudantes decidiu manter-se firme contra as medidas do DCE e da UJS, montando e permanecendo em acampamento dentro da Universidade. Assim como na PUC, a UJS mantém sua força em dezenas de universidades particulares, principalmente. O processo da PUC mostra como funciona a lógica do grupo majoritário dentro da UNE: concentrar forças na manutenção do poder dentro da entidade.

Em Goiânia as coisas não saíram muito do que indicava essa política rasteira praticada por grupos políticos ligados ao governo. Era nítida a vontade dos organizadores do Congresso em despolitizar ao máximo aquele espaço. Por um lado, diminuindo ao máximo os grupos de debate durante o Congresso. Por outro lado, dificultando sistematicamente a vida da chamada “Oposição de Esquerda”.

“Nós precisamos tomar uma decisão: nós vamos ocupar a escola?”. Sim!, foi a resposta geral.

Todo o primeiro dia de Congresso já havia ocorrido e centenas de estudantes ainda permaneciam sem alojamento para a noite que chegava. Foi quando a notícia de que o tão esperado alojamento tinha sido conseguido. A alegria durou pouco tempo, só até que outra notícia chegasse: aquele espaço já estaria reservado.

Era necessário tomar alguma providência. E a ocupação parecia a única forma de intervenção capaz de convencer a Direção da UNE de que o alojamento era questão urgente. A ocupação não ocorreu, mas a aglomeração em frente da Escola deu resultado. Depois de algumas horas, finalmente um alojamento seria fornecido. O caso é um bom exemplo do descaso dos organizadores com os grupos contrários à Direção da UNE.

O processo “democrático” defendido pela Direção mostrava-se um grande engodo. Nos dias seguintes nada parecia alterar essa visão. Até que, na tarde do penúltimo dia, ocorreu uma grande surpresa: a bancada da chamada “Frente de Oposição de Esquerda”, FOE, parecia inchada.

Notícias davam conta de que, no Congresso anterior, em 2009, a FOE era um grupo correspondente a 10% do Congresso. Já neste 52º Congresso ela aparecia tendo quase o dobro disso. Esse movimento mostrou nova vibração no Movimento Estudantil brasileiro. Um movimento verdadeiramente independente do governo, capaz de reconhecer suas qualidades sem deixar de fazer todas as críticas necessárias.

Este Movimento pareceu ser a única fonte de esperança dentro de um Congresso apático. Um movimento também com suas contradições, mas com qualidade suficiente para fazer o enfrentamento ao governo. Os dois últimos dias eram reservados à votação, e a força da UJS e suas adjacências governistas (grupos do PMDB, PT, PDT), com quase três quartos da Plenária, era imbatível. Tudo saiu conforme o planejado para o grupo majoritário que controla a UNE há duas décadas, mas o crescimento de uma bancada forte de Oposição de Esquerda na UNE trouxe esperança. De que é feito um Congresso da UNE? De apatia, mas também de boas perspectivas para um movimento estudantil que honre a história da União Nacional dos Estudantes.

Foto de Tiago Miotto

DE QUE É FEITO UM CONGRESSO DA UNE?, pelo viés de João Victor Moura