O mito da doutrinação marxista nas escolas

Posted: 8 de Janeiro de 2014 by Duke de Vespa in Cotidiano
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“Por que se questiona tanto o estudo de Marx e não a interferência prática e direta [nas escolas e universidade] das empresas de carros, tratores e sementes, institutos de cosméticos e bancos”… [e empresas de bebidas alcoólicas]?

mito

Ultimamente venho “escutando” na internet e nas redes sociais, uma gritaria estrondosa a respeito da suposta doutrinação ideológica marxista, praticada pelos professores das escolas e universidades brasileiras.

Já escrevi alguns posts sobre o caso da professora Cleo Tibiriça da Fatec Barueri, perseguida pelo blog arque-conservador “EscolaSemPartido”.

Entretanto, seguindo a mesma linha, tratarei hoje de mais um episódio dessa novela mexicana de péssimo gosto misturada com teoria da conspiração de segunda…

Recentemente, o filósofo direitista e colunista da Folha de São Paulo, Luís Felipe Pondé, escreveu o artigo “Eu acuso”, onde denuncia a terrível coação comunista na qual os pobres alunos do ensino médio e superior estão sendo submetidos:

“Muitos alunos de universidade e ensino médio estão sendo acuados em sala de aula por recusarem a pregação marxista. São reprovados em trabalhos ou taxados de egoístas e insensíveis. No Enem, questões ideológicas obrigam esses jovens a “fingirem” que são marxistas para não terem resultados ruins”.   

http://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2013/11/1366183-eu-acuso.shtml

Em resposta, o também filósofo e professor universitário, Paulo Ghiraldelli, publicou em seu blog, o artigo “Pondé e o perigo da doutrinação nas escolas” expondo ao ridículo a falácia panfletária de Pondé:

“Estamos em uma época que nenhum professor reina, ao contrário, a maioria acaba cedendo a tudo que o aluno pede. Vivemos em uma situação deplorável do ponto de vista do respeito ao professor, tanto no ensino médio quanto na universidade.”.

http://ghiraldelli.pro.br/ponde-e-o-perigo-da-doutrinacao-nas-escolas/

Porém, com o intuito de aprofundar um pouco mais esse debate, reproduzirei aqui o interessante comentário ao texto de Ghiraldelli, escrito pela leitora de seu blog, identificada apenas como Amanda. Amanda expõe de forma clara e objetiva (sem floreios filosóficos) a total desconexão da realidade existente no discurso denuncista da direita tupiniquim.

“Sempre que os leio [os articulistas da direita], sinto que estudei e me formei em escolas e universidade de outro país”.

Para que o leitor tenha maior compreensão dessa picuinha, aconselho-o a ler os artigos de Pondé e Ghiraldelli, mencionados acima. Vale a pena conferir!

Sobre a suposta doutrinação marxista nas escolas:

Comentário de Amanda no blog http://ghiraldelli.pro.br

Olá, Ghiraldelli e demais. Meu comentário talvez em nada contribua para a discussão, mas considero importante colocar esta minha inquietação. Sou professora da educação básica e me formei em História há pouco tempo em uma universidade pública.

Vejo frequentemente vários textos que falam de uma doutrinação marxistas nas escolas e universidades (e diga-se de passagem, este seu texto é o primeiro em que vi tratar o tema de forma mais crítica). A inquietação: sempre que os leio, sinto que estudei e me formei em escolas e universidade de outro país!

Estudei toda minha vida em escola pública e por mais que tente encontrar algum traço de tamanha intelectualidade nas aulas que tive (a ponto de estudar categorias marxistas e de outros clássicos), só posso lhe afirmar que a educação nas escolas públicas que cursei, além de não conseguir transgredir o básico dos conteúdos possibilitados pelas condições precárias de ensino, me pareceu totalmente em acordo com o modelo do mercado. Aliás, quando comecei a dar aulas na educação infantil descobri que não poderia ser diferente, já que os programas educacionais das secretárias educação (não diferente é o MEC), em grande parte, estão vinculados a projetos da iniciativa privada de alguma forma (eu, no pequeno período que fui professora na educação infantil, já tive vários cursos de formação continuada ministrados diretamente por agentes do Instituto Natura, da Fundação Itaú Social, etc.). Fora isso, muitas amigas minhas trabalham em escolas privadas e a nova grande moda para a educação infantil e séries iniciais, ao menos nas escolas privadas da região em que moro, é a matéria de Empreendedorismo para crianças.

Mas, enfim, me voltando para a Universidade em que me formei minha inquietação é maior ainda. Por fim, foi diferente, ao menos na universidade pública podemos afirmar que as condições de ensino e pesquisa lhe permitem contato com os mais variados autores, discussões e perspectiva. Ao menos nos cursos de humanas, pois os de engenharia seguem no aprofundamento de lógica de “escolão” e cada vez mais vinculados diretamente a projetos da iniciativa privada (ao menos na minha universidade, já vi várias exposições públicas de marcas de carros, tratores, sementes e demais empresas que financiam e se beneficiam das pesquisas realizadas nos cursos de engenharias).

Enfim, mas quanto aos cursos de humanas (e tive contato com vários durante minha graduação, pois sempre fui muito de cursar disciplinas em outros cursos), me lembro bem da minha graduação e me pergunto exaustivamente: onde esteve Marx? Confesso que em todo o meu curso de História só o discutimos uma ou duas vezes de forma muito superficial. Além do meu curso, na Ciências Sociais me lembro de ter tido a oportunidade de conhecer melhor que autor era este, obviamente, em uma disciplina de Sociologia 1 ou 2, em que a leitura, como você já bem disse, de Marx, Weber e Durkheim é mais que obrigatória. Nos demais cursos de humanas que tive contato (pedagogia, direito e geografia), conhecendo e perguntando para amigos, me garantem que jamais estudaram Marx propriamente. Voltando para o meu curso e, com certeza, também nestes demais, posso garantir, com toda absoluta certeza, que a maior parte dos professores reproduz claramente que Marx foi superado, e que minha formação se baseou mais em visões pós modernistas que marxistas.

Então, só vejo três alternativas: ou a maior parte destas pessoas que lê Luís Felipe Pondé e Reinaldo Azevedo não estudaram em escolas públicas, ou mesmo entraram e saíram da universidade sem saber o que realmente é Marx, achando que qualquer coisa que fale de capitalismo já seria marxista. Ou, por último, talvez eu tenha tido sorte de estudar em uma universidade revolucionária que conseguiu se libertar da doutrinação marxista e ser livre para se conectar a iniciativa privada.

Pois bem, para que eu possa mesmo descobrir se não estou mesmo sendo doutrinada, estes colunistas e seus leitores poderiam somente nos esclarecer porque se questiona tanto o estudo de Marx e não a interferência prática e direta das empresas de carros, tratores e sementes e Institutos de cosméticos e bancos. Afinal, muito se falou em leitura de Marx, mas ainda não vi nenhuma queixa sobre a negatividade dos efeitos práticos de sua leitura nas universidades. Gostaria de ouvir mais de Pondé, Reinaldo Azevedo e os que os defendem, o porquê Marx anda sendo tão perigoso na educação de nosso jovens.

Desculpem a extensão do texto rs Aguardo respostas dos leitores e, se possível, com suas experiências de leitura de Marx nas escolas públicas brasileiras.

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Comentários
  1. A questão não é Marx ser perigoso ou não, a questão é que há sim uma espécie de doutrinação política por parte de alguns professores em faculdades, não é um caso exclusivo das FATECs.
    As diferentes correntes políticas devem ser apresentadas de acordo com o plano de ensino de alguns cursos, mas sem pender para um lado.
    Estimular a discussão saudável é o que se espera dos professores.

    P.s.: eu já fui perseguido por um professor da Fatec, na época que era estudante, por ter uma visão política diferente da dele, que era petista.

    • Mateus diz:

      Estudei química licenciatura em uma universidade particular no Paraná, e minha professora de ciências humanas não escondia sua idolatria por Marx e sua aversão ao modelo liberal conservador. Houve aulas em que ela claramente nos instigava a protestar contra a universidade por cobrar dos alunos quinze reais para fazer a prova de recuperação semestral. O argumento nesse caso era que estávamos sendo explorados por um mostro capitalista. Minha turma sempre achou ela maluca, por querer nos incitar contra a propriedade privada, e sempre havia o comentário: “se você não quer pagar pela recuperação, estude muito”. Nunca achamos ruim pagar pelo valor da recuperação, achávamos ruim era o fato de que a prova de recuperação tava muito difícil, essa era a parte “opressora”.

  2. patrick diz:

    Tudo que vem de Marx é uma merda. Comunismo tem que acabar é um cancer.

  3. […] TEXTO do amigo Deividson Vespasiano, sobre o exagero que alguns grupos conservadores estariam fazendo ao acusar determinadas ementas de apostilias pedagógias de estarem enviesando o conteúdo para um proselitismo ideológico. segue o linke do seu blog: https://independentefatecsp.wordpress.com/2014/01/08/o-mito-da-doutrinacao-marxista-nas-escolas/ […]

  4. Rafael Salles diz:

    O teor desse texto confirma totalmente a doutrinação marxista nas escolas. Querer ideologizar o mercado é puro marxismo.

    • Cesar diz:

      E o teor da sua resposta indica o nível de imbecilidade daqueles que não superaram em hipótese nenhuma o senso comum, não duvido que existam educadores arrogantes nas universidades, mas, de todo modo e fundamental os universitários terem acesso ao pensamento crítico independente da posição ideológica. Tanto um pensamento marxista quanto um pensamento liberal, agora esse devaneio sobre a doutrinação marxista e tolice, mesmo porquê o marxismo não e uma verdade absoluta, na sociologia também estuda-se Max Webber, bauman, adorno, bourdieu, Norbert Elias e etc.; no curso de história existe uma enorme corrente de pensamento voltada para a cultura, também tem a história da mentalidade onde predominam muitas vezes historiadores liberais. Gostaria de saber onde eu encontro A doutrinação marxista.

  5. Frank Oddermayer diz:

    O nome correto não é doutrinação marxista, é doutrinação GRAMSCISTA.

  6. Ton diz:

    Esse seu texto só demonstrou que vc realmente foi doutrinada e nem mesmo percebeu isso.Estou chocado….

    • Frank Oddermayer diz:

      Ton, você se enganou, eu sou liberal. Para você poder dar uma opinião sobre algo é preciso conhecer o assunto, por isso eu mencionei o gramscismo. O estrondoso fracasso do comunismo me tornou um liberal convicto. A única saída econômica e social para o mundo é o Liberalismo. Qualquer argumento contra se dá apenas por absoluta falta de informação sobre a realidade do mundo. Todos os problemas relacionados à escassez devem-se unicamente à ausência de Liberalismo amplo, não necessariamente Neoliberalismo. A questão central não é a desigualdade. A igualdade é impossível, com exceção aos direitos e obrigações, cujas leis existem para resolver isso.

      Sds e abs.

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